Bad Bunny entra para a lista de inimigos de Donald Trump ao lado de chineses, russos, iranianos, palestinos, colombianos, mexicanos, venezuelanos, crianças e até dos brasileiros.
O dia em que o espanhol virou língua oficial do pop no Brasil

Bad Bunny, Donald Trump e a disputa cultural por uma América Latina que nunca deixou de existir
Quando um estádio canta em espanhol
Allianz Parque lotado. Quarenta mil pessoas cantando em espanhol com segurança, entrega e convicção. Nenhuma tradução no telão. Nenhuma adaptação para facilitar entendimento. Nenhuma concessão.
À primeira vista, trata-se apenas de um show de Bad Bunny.
Mas talvez o que tenha acontecido naquele estádio seja maior do que um concerto.
Durante boa parte do século XX, aprender inglês parecia um requisito quase obrigatório para consumir música pop internacional. O idioma carregava consigo uma promessa de universalidade. O espanhol permanecia associado a um mercado regional, importante, mas distante do centro da indústria cultural.
Quando milhares de brasileiros cantam um repertório inteiro em espanhol sem qualquer mediação, algo mudou.
A pergunta deixa de ser musical.
Ela passa a ser histórica.
Como o inglês se tornou a língua do pop mundial? E por que o espanhol voltou a ocupar esse espaço justamente agora?
A América Latina nunca foi apenas um território
Muito antes de existir como categoria econômica ou geográfica, a América Latina foi um projeto político.
No início do século XIX, líderes como Simón Bolívar defendiam a integração dos países recém-independentes, imaginando um continente capaz de construir autonomia econômica, política e cultural diante das antigas potências europeias. Algumas décadas depois, o escritor e intelectual cubano José Martí aprofundaria essa ideia ao defender que a América Latina precisava deixar de olhar para fora em busca de modelos e começar a reconhecer sua própria identidade.
Essa preocupação fazia sentido.
Enquanto o continente buscava consolidar sua independência, outra potência começava a crescer.
Em 1823, os Estados Unidos anunciaram a Doutrina Monroe, resumida pela frase “A América para os americanos”. Oficialmente, tratava-se de impedir novas colonizações europeias. Na prática, inaugurava-se um longo processo de influência norte-americana sobre o continente.
Ao longo dos séculos XIX e XX, essa presença assumiria diferentes formas: econômicas, diplomáticas, militares e, mais tarde, culturais.
O século americano
Durante boa parte do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos consolidaram sua posição como principal potência mundial.
Na América Latina, essa influência extrapolou a economia.
Durante a Guerra Fria, Washington apoiou governos, intervenções e golpes militares em diferentes países da região sob a justificativa de conter o avanço do comunismo.
Brasil em 1964.
Chile em 1973.
Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia através da Operação Condor.
Cada episódio possui características próprias, mas todos revelam uma mesma lógica geopolítica: manter o continente dentro da esfera de influência norte-americana.
Enquanto isso, uma forma de influência muito menos visível crescia silenciosamente.
A cultura.
A hegemonia também se constrói pela cultura
O filósofo italiano Antonio Gramsci, preso pelo regime fascista de Benito Mussolini, desenvolveu um dos conceitos mais importantes da teoria política do século XX: hegemonia cultural.
Para Gramsci, nenhuma potência se sustenta apenas pela força.
Ela também precisa convencer.
Precisa fazer com que seus valores, costumes e referências pareçam naturais.
É justamente isso que acontece ao longo do século XX.
Hollywood se transforma na principal fábrica de imaginários do planeta.
A Disney passa a exportar narrativas.
A MTV redefine o videoclipe.
As gravadoras americanas internacionalizam o rock e o pop.
A CNN cria um fluxo global de informação.
Consumir cultura norte-americana deixa de parecer uma escolha estrangeira.
Passa a parecer simplesmente... cultura.
Nesse processo, o inglês deixa de ser apenas um idioma.
Transforma-se na língua natural da indústria musical global.
Não porque fosse artisticamente superior.
Mas porque carregava consigo a infraestrutura cultural mais poderosa já construída.
O poder de convencer
Décadas depois, o cientista político norte-americano Joseph Nye daria um nome para esse fenômeno.
Soft Power.
Professor da Universidade Harvard, Nye defendia que um país pode exercer influência não apenas pela força militar ou econômica, mas pela capacidade de fazer o resto do mundo desejar consumir seus valores.
Quanto mais pessoas assistem aos seus filmes, aprendem seu idioma, escutam sua música e reproduzem seus hábitos, maior se torna seu poder.
Os Estados Unidos dominaram esse mecanismo como nenhum outro país.
Durante décadas, cantar em inglês não era apenas uma escolha artística.
Parecia ser o único caminho possível para alcançar o mercado internacional.
O português: uma ilha dentro da América Latina
Existe, porém, uma particularidade que sempre diferenciou o Brasil do restante do continente.
O país nunca deixou de ser latino-americano.
Mas aprendeu a funcionar como uma ilha cultural dentro da própria América Latina.
A principal razão é linguística.
Enquanto praticamente todos os países da região compartilham o espanhol, o Brasil desenvolveu sozinho uma das maiores indústrias culturais do planeta em língua portuguesa.
Essa condição produziu um efeito ambíguo.
De um lado, permitiu que artistas brasileiros alcançassem enorme sucesso sem depender do mercado externo.
Do outro, reduziu a circulação natural entre Brasil e seus vizinhos.
O português acabou funcionando simultaneamente como proteção e isolamento.
Proteção porque fortaleceu uma produção cultural extremamente rica.
Isolamento porque afastou o país de um circuito latino-americano que compartilhava experiências históricas muito semelhantes.
Durante décadas, o Brasil dialogou mais intensamente com os Estados Unidos do que com seus próprios vizinhos.
O inglês passou a representar o universo da música internacional.
O espanhol ocupava uma posição curiosa: próximo demais para parecer exótico, distante demais para parecer familiar.
Essa divisão moldou o consumo cultural brasileiro durante boa parte do século XX.
Quando o algoritmo derruba fronteiras
Essa lógica começa a mudar nos anos 2010.
Streaming, YouTube, TikTok e redes sociais alteram completamente a forma como a música circula.
Antes, o caminho passava obrigatoriamente por rádios, televisão e grandes gravadoras.
Agora, passa pelo algoritmo.
O algoritmo não pergunta qual idioma uma música utiliza.
Ele pergunta apenas quanto tempo as pessoas permanecem ouvindo.
Se existe retenção, existe entrega.
Se existe engajamento, existe alcance.
Pela primeira vez desde a consolidação da indústria fonográfica moderna, artistas conseguem disputar atenção global sem precisar adaptar sua identidade cultural ao inglês.
A geografia perde importância.
A língua deixa de ser uma barreira absoluta.
O antigo pedágio cultural começa a desaparecer.
Bad Bunny não criou essa mudança. Tornou-se seu símbolo.
Quando Despacito dominou as paradas mundiais em 2017, muita gente tratou o sucesso como uma exceção.
Hoje sabemos que não era.
Era o início de uma transformação estrutural.
Bad Bunny surge exatamente nesse cenário.
Seu diferencial nunca foi apenas cantar em espanhol.
Foi recusar a lógica que dominou a música pop durante décadas.
Ele nunca transformou Porto Rico em uma versão mais palatável para o mercado norte-americano.
Fez exatamente o contrário.
Levou Porto Rico para o centro da indústria.
Seus discos continuam em espanhol.
Seu vocabulário permanece local.
Suas referências seguem profundamente caribenhas.
Seu sucesso demonstra que, pela primeira vez em muito tempo, a identidade regional deixou de ser obstáculo para se tornar vantagem competitiva.
Quando a música também vira política
Essa permanência na cultura latino-americana também se refletiu em seu posicionamento público.
Nos últimos anos, Bad Bunny criticou repetidamente políticas migratórias, discursos nacionalistas e propostas associadas ao presidente Donald Trump, especialmente aquelas direcionadas às comunidades latinas e porto-riquenhas.
Sua postura transformou sua imagem.
Ele deixou de representar apenas um artista de sucesso.
Passou a representar uma identidade latino-americana que se recusa a ocupar uma posição periférica dentro da cultura global.
Sua permanência no espanhol deixa de ser apenas uma decisão linguística.
Torna-se também uma afirmação política e simbólica.
A de que a América Latina não precisa mais traduzir a si mesma para ser ouvida.
O retorno de um continente
Existe uma ironia interessante nessa história.
Durante as décadas de 1960 e 1970, artistas brasileiros como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Belchior dialogavam intensamente com o restante da América Latina. Compartilhavam temas, festivais, exílios políticos e uma mesma preocupação com democracia, identidade e resistência.
Belchior dizia ser “apenas um rapaz latino-americano”.
Essa frase fazia sentido.
Nas décadas seguintes, o Brasil passou a olhar cada vez mais para o eixo anglo-americano.
Hoje, esse movimento parece começar a se inverter.
Anitta grava em espanhol.
Pabllo Vittar colabora com artistas latinos.
Luísa Sonza aproxima sua música do mercado hispânico.
O funk brasileiro circula cada vez mais pelo continente.
O Brasil não está deixando de ser brasileiro.
Está voltando a conversar com a América Latina.
O dia em que o espanhol virou língua oficial do pop brasileiro
Quando quarenta mil pessoas cantam Bad Bunny em espanhol dentro de um estádio, não estão apenas consumindo um artista estrangeiro.
Estão participando de uma mudança histórica nos fluxos culturais.
Durante mais de um século, a circulação da música pop caminhou quase sempre na mesma direção: do centro anglófono para o restante do mundo.
Hoje, pela primeira vez, esse movimento começa a se tornar mais horizontal.
O inglês continua sendo uma das principais línguas da música mundial.
Mas deixou de ser sua única porta de entrada.
O espanhol ocupa agora um lugar que durante muito tempo lhe foi negado.
E o português, curiosamente, parece reencontrar sua posição dentro desse mesmo continente.
Talvez o maior significado do sucesso de Bad Bunny não seja o fato de quarenta mil brasileiros cantarem em espanhol.
Talvez seja outro.
Durante décadas, a indústria cultural ensinou que, para alcançar o mundo, era preciso traduzir a própria identidade.
Bad Bunny fez o movimento inverso.
Permaneceu onde sempre esteve.
Cantou na língua em que nasceu.
Defendeu a cultura que o formou.
E obrigou o resto do mundo a aprender a escutá-lo.
No fim, o Allianz Parque cantando em espanhol não representa apenas o triunfo de um artista.
Representa o momento em que a América Latina voltou a ouvir a própria voz — e o Brasil, depois de muito tempo falando quase sozinho em português, começou novamente a cantar junto.
Editoria Revista Catarse | solenia records | 2026
Também publicado na Substack da Revista Catarse.