Duas vozes que já escreveram a música antes de nós
Um poeta simbolista brasileiro e um parnasiano, décadas de distância entre eles, escrevendo sobre o que a música deixa para trás, e sobre ouvir o que, tecnicamente, não devia ter som.

Esta edição do Caderno Solenia foge do formato de texto autoral único pra propor um encontro: dois poemas de domínio público, escritos por brasileiros que nunca se cruzaram, lidos lado a lado por causa de um tema comum: o que acontece quando a música (ou algo parecido com ela) já passou, ou nunca devia ter existido de verdade.
Texto 1: trecho de “Violões Que Choram…”, Cruz e Sousa (livro Faróis, 1900)
Ah! plangentes violões dormentes, mornos… […] Como me embala toda essa pungência, Essas lacerações como me embalam, Como abrem asas brancas de clemência As harmonias dos violões que falam!
Cruz e Sousa foi o principal poeta do Simbolismo brasileiro, e o primeiro grande poeta negro da literatura canônica do país, construindo essa obra em meio a um racismo explícito que marcou toda a sua carreira e recepção crítica em vida. Neste trecho, o violão não é descrito, é personificado: ele “chora”, ele “fala”. Essa escolha não é acaso, é programa estético. O Simbolismo nasce como reação ao Parnasianismo, que valorizava a precisão da forma e da imagem visual; os simbolistas, influenciados pelo francês Verlaine e sua máxima “De la musique avant toute chose” (“a música antes de qualquer coisa”), queriam que o poema soasse como música antes mesmo de significar algo com clareza. Um instrumento popular e urbano, o violão do Rio de Janeiro de fins do século 19, ganha aqui o tratamento que a poesia culta normalmente reservava só a temas “elevados”.
Texto 2: “Ora (direis) ouvir estrelas!” (Soneto XIII, Via Láctea), Olavo Bilac (1888)
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto A via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
Este é, provavelmente, o soneto mais citado da poesia brasileira, e o assunto dele é justamente ouvir algo que, tecnicamente, não emite som algum: as estrelas. Não é um poema sobre um instrumento ou sobre uma música real; é um poema que usa a ideia de “escutar” como metáfora de um tipo mais profundo de percepção: a escuta como ato de amor e atenção, não como fenômeno físico. O verso final resume o argumento inteiro: só quem ama tem ouvido capaz de ouvir o inaudível.
Essa ideia não nasce com Bilac: ela remete à antiga noção de “música das esferas” (musica universalis) da tradição pitagórico-platônica, do século 6 antes de Cristo, que imaginava os corpos celestes produzindo uma harmonia inaudível ao ouvido comum. Séculos depois, o filósofo Boécio sistematizou essa ideia no tratado De Institutione Musica (século 6 d.C.), dividindo a música em três categorias: a mundana (dos astros), a humana (do corpo e da alma) e a instrumentalis (a música de fato tocada e ouvida). Bilac, poeta parnasiano do Brasil de fins do século 19, movimento conhecido por valorizar erudição e forma, revive essa tradição filosófica milenar dentro de catorze versos.
Lidos em sequência, os dois poemas propõem a mesma pergunta por caminhos opostos: um pergunta o que resta da música depois que ela para de soar; o outro pergunta se é possível ouvir uma música que nunca teve, de fato, som algum. Nos dois casos, a resposta está menos no ouvido e mais em quem escuta.