ENHYPEN em São Paulo e o fantasma da "indústria cultural"
O grupo treinado do K-pop enche o Allianz Parque e reacende uma crítica que tem quase 80 anos: a pergunta é se ela ainda se sustenta.

ENHYPEN traz a “Blood Saga World Tour” ao Allianz Parque, em São Paulo, no dia 4 de julho. Mais um grupo de K-pop, formado por sistema de treinamento, tocando pra um estádio lotado no Brasil: cena que, há uma década, seria rara por aqui e hoje já é rotina de calendário de shows internacionais.
O modelo por trás disso é conhecido: artistas selecionados ainda adolescentes, anos de treinamento intensivo em canto, dança e mídia, coreografias e imagem desenhadas por uma equipe, lançamento coordenado como produto de selo. É, por definição, o oposto do mito do artista “descoberto”, que surge sozinho e chega ao público por mérito espontâneo.
Esse contraste não é novo: é quase o mesmo que o filósofo alemão Theodor Adorno levantou nos anos 1940, ao cunhar o conceito de “indústria cultural”: a ideia de que, sob um sistema industrial de produção cultural, a arte deixa de ser expressão espontânea e passa a ser mercadoria padronizada, desenhada pra agradar em massa, dessa produzida em série como qualquer outro bem de consumo. Adorno escrevia sobre cinema e rádio de Hollywood; o alvo hoje poderia ser, sem muito esforço, qualquer sistema de treinamento de grupo pop.
A pergunta que vale fazer não é se Adorno “está certo” em abstrato: é se essa crítica ainda ilumina algo quando aplicada a um modelo que, na prática, enche estádio, emociona plateia e sustenta carreira de gente que passou a vida inteira se preparando pra aquele palco. Tratar o resultado como “menos legítimo” só por ter vindo de um processo deliberado, e não de um acaso, é uma posição confortável pra quem nunca precisou construir nada do zero, e ao mesmo tempo, ignorar que existe, sim, um projeto de padronização por trás disso também seria ingênuo.
O ponto mais útil talvez não seja escolher um lado dessa disputa, mas notar o que ela revela sobre o próprio conceito de “autenticidade” que o mercado musical vende. Ninguém compra ingresso pra ver “indústria cultural”: compra pra ver uma pessoa em cima do palco que parece verdadeira. Se essa sensação de verdade nasce de treino de dez anos ou de um dom espontâneo raramente muda o que o público sente na hora do show. Muda, isso sim, o discurso de marketing que cada modelo consegue vender em torno de si.
Pro artista independente, esse contraste serve como termômetro, não como veredito. Vale entender exatamente onde a “autenticidade não-treinada”, a marca registrada do indie, realmente pesa como diferencial de verdade pro público, e onde ela é só um discurso confortável que ninguém testou contra um modelo mais estruturado. Adorno provavelmente não seria fã de K-pop. Mas a pergunta que ele fez continua valendo a pena, inclusive pra quem está do lado de fora do sistema que ele criticava.