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Caderno SoleniaEdição 04 · AGO 2026

O silêncio que dorme sob a paisagem

"Paisagem", de Francisca Júlia (1895), e a arte de desacelerar a escuta até notar o que o barulho normalmente esconde

Pintura: José Ferraz de Almeida Júnior / Wikimedia Commons / domínio público · ver original

Dorme sob o silêncio o parque. Com descanso, Aos haustos, aspirando o finíssimo extrato Que evapora a verdura e que deleita o olfato, Pelas alas sem fim das árvores avanço.

Ao fundo do pomar, entre as folhas, abstrato Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso Escorrega de manso, escorrega de manso Pelo claro cristal do límpido regato.

Nenhuma ave sequer sobre a macia alfombra Pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece A campina, a rechã sob a noturna sombra.

E enquanto o ganso vai, abstrato em cismas, pelas Selvas adentro entrando, a noite desce, desce… E espalham-se no céu camândulas de estrelas…

(Francisca Júlia, livro Mármores, 1895: domínio público)

Francisca Júlia da Silva foi uma das poucas mulheres a conquistar lugar consolidado no cânone do Parnasianismo brasileiro, num período em que a poesia de escola era território quase exclusivamente masculino. Ficou conhecida como “a Diana Caçadora” do movimento: apelido que fala tanto do rigor formal da sua escrita quanto da resistência que enfrentou pra ser levada a sério nesses termos. “Paisagem”, publicado em “Mármores” (1895), é um soneto de métrica impecável, mas com uma sensibilidade que já flerta com o Simbolismo finissecular que se consolidava ao mesmo tempo, em outra ponta do mesmo período literário.

O poema não é sobre música, não há instrumento, não há voz cantando. E é exatamente por isso que ele interessa a esta seção: porque descreve, com precisão quase física, o gesto que toda escuta atenta exige antes mesmo de qualquer som acontecer. “Dorme sob o silêncio o parque” não é ausência de acontecimento: é o silêncio como estado ativo, um lugar onde a percepção se aguça justamente porque não há ruído competindo por atenção. O eu lírico avança “pelas alas sem fim das árvores” respirando um extrato “finíssimo”, como se o próprio ato de perceber precisasse ser lento pra funcionar.

A imagem central do poema (o ganso “abstrato em cismas”, “escorregando de manso” pela água, sem pressa, indiferente ao entardecer que avança ao redor dele) funciona quase como retrato de um estado de contemplação que a pressa cotidiana normalmente não permite. É a mesma qualidade de atenção que esta edição encontra, por caminhos bem diferentes, tanto no silêncio deliberado de seis anos entre álbuns de uma artista pop quanto na aposta de uma cantora de MPB em não abrir mão da própria pausa interna mesmo ao migrar pra um som mais aberto ao grande público.

Publicado no auge do Parnasianismo (escola que buscava a perfeição formal do verso como valor em si, “arte pela arte”, sem grandes concessões à efusão emocional) “Paisagem” também marca um contraste histórico que vale registrar: onde o Simbolismo de poetas como Cruz e Sousa (já apresentado numa edição anterior desta revista) buscava a musicalidade da palavra e a vagueza emotiva como caminho, o Parnasianismo de Francisca Júlia chega a um resultado parecido, a sensação de silêncio contemplativo, por um caminho quase oposto: precisão, forma fechada, distância impassível do próprio sentimento. Duas escolas, dois métodos, o mesmo impulso de fim de século: parar, escutar o que o barulho do cotidiano normalmente engole.

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