Luciano Simioni e o olhar da Geração Z
Como um rosto aparentemente frio revela uma das maiores transformações emocionais do século XXI

O olhar que insiste em aparecer
Existe um elemento que atravessa praticamente toda a construção artística de Luciano Simioni.
Ele aparece nas fotografias, nas capas, nos videoclipes e nas apresentações ao vivo. É um olhar fixo, distante e quase sem reação. Não transmite exatamente tristeza, nem felicidade. Tampouco parece vazio. Existe uma contenção permanente, como se a emoção estivesse sempre acontecendo em outro lugar. Nunca na superfície.
À primeira vista, esse olhar poderia ser interpretado apenas como uma decisão estética. Um recurso de direção de arte, uma assinatura visual ou uma preferência de performance. Mas a história da arte demonstra que linguagens recorrentes raramente permanecem apenas no campo da escolha individual. Quando um gesto insiste em aparecer, ele normalmente revela algo sobre o tempo histórico que o produziu.
A pergunta, portanto, deixa de ser estética.
De onde vem esse olhar?
Talvez a resposta não esteja apenas em Luciano Simioni.
Talvez esteja na geração à qual ele pertence.
O corpo também pertence à história
Existe uma tendência de imaginar que gestos, expressões faciais e maneiras de olhar são naturais, como se fossem características exclusivamente individuais. A sociologia e a história pensam diferente.
O sociólogo alemão Norbert Elias (1897–1990), um dos maiores nomes da sociologia do século XX, dedicou boa parte de sua obra a demonstrar que até aquilo que fazemos com o corpo é aprendido historicamente. Em seu livro O Processo Civilizador, Elias explica que comportamentos considerados espontâneos — a forma de rir, de comer, de expressar raiva, de controlar impulsos ou demonstrar afeto — mudam conforme a sociedade muda.
Em outras palavras: o corpo também possui uma história.
Cada época produz maneiras específicas de ocupar o espaço, controlar emoções e se apresentar diante dos outros.
Se isso vale para os gestos, também vale para o olhar.
O rosto nunca comunica apenas um indivíduo.
Ele comunica, ainda que silenciosamente, o tempo em que esse indivíduo aprendeu a existir.
O Gen Z Stare não é apenas um meme
Nos últimos anos, um fenômeno começou a circular pelas redes sociais sob um nome curioso: Gen Z Stare.
O termo surgiu para descrever uma expressão frequentemente associada à Geração Z: olhar fixo, poucas reações faciais, expressão neutra e uma aparente ausência de entusiasmo. Rapidamente, o comportamento virou meme. Para muitos, tratava-se apenas de uma geração “fria” ou “desinteressada”.
Mas a psicologia oferece outra hipótese.
O psicólogo norte-americano James J. Gross, professor da Universidade Stanford e uma das maiores autoridades mundiais em regulação emocional, demonstrou em décadas de pesquisa que existe uma diferença importante entre sentir e expressar.
Em seus estudos sobre supressão expressiva, Gross mostra que pessoas frequentemente reduzem os sinais visíveis de suas emoções sem que isso diminua a intensidade do que estão vivendo internamente. A emoção permanece. O que muda é sua manifestação.
Essa diferença é decisiva para compreender o chamado Gen Z Stare.
Talvez essa geração não demonstre menos porque sente menos.
Talvez demonstre menos porque cresceu em um ambiente onde tudo é observado.
Câmeras.
Stories.
Reels.
Vídeos.
Algoritmos.
Comentários.
Avaliações permanentes.
Em uma cultura onde praticamente toda reação pode ser registrada, compartilhada e julgada, controlar a expressão deixa de ser apenas comportamento. Torna-se estratégia.
O rosto neutro passa a funcionar como proteção.
Persona: a máscara que organiza o sentir
Essa ideia encontra um paralelo importante na obra do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875–1961).
Fundador da Psicologia Analítica, Jung propôs uma distinção entre dois conceitos frequentemente confundidos: personalidade e persona.
A personalidade corresponde ao conjunto relativamente estável de características psicológicas que organizam quem somos.
A persona, por outro lado, é a máscara social que construímos para negociar nossa relação com o mundo.
Ela não representa mentira.
Representa adaptação.
Décadas depois, o sociólogo canadense Erving Goffman, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana, ampliaria essa ideia ao sugerir que toda interação social funciona como uma espécie de palco. Dependendo do contexto, administramos gestos, linguagem, postura e emoções da mesma forma que um ator administra sua atuação diante de uma plateia.
Hoje, essa plateia ganhou escala global.
As redes sociais transformaram praticamente qualquer momento em uma performance pública.
Sob essa perspectiva, o olhar de Luciano deixa de parecer ausência de emoção.
Ele passa a funcionar como uma escolha narrativa.
Sua persona organiza aquilo que a personalidade experimenta.
O exterior permanece controlado para que o interior possa existir sem precisar ser constantemente exposto.
O espírito do tempo
É justamente aqui que a construção artística de Luciano deixa de ser apenas uma identidade visual e passa a dialogar com um conceito clássico da filosofia: o Zeitgeist.
A palavra alemã significa “espírito do tempo” e ficou associada ao pensamento do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831). Para Hegel, cada período histórico produz formas específicas de pensar, sentir e interpretar o mundo. A arte não apenas pertence ao seu tempo; ela revela aquilo que esse tempo ainda está tentando compreender sobre si mesmo.
Grandes artistas raramente inventam sozinhos uma sensibilidade.
Eles capturam mudanças coletivas antes que elas recebam um nome.
Talvez seja isso que aconteça com Luciano Simioni.
Sua estética parece registrar uma transformação emocional que caracteriza parte da Geração Z: uma geração formada sob redes sociais, crises econômicas sucessivas, pandemia, hiperconectividade e uma cultura marcada pela exposição permanente.
O resultado não foi uma geração menos sensível.
Foi uma geração mais consciente da própria imagem.
Mais observada.
Mais cautelosa.
Mais interessada em administrar aquilo que demonstra.
A sociedade que exige transparência
Essa mudança também é analisada pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um dos principais intérpretes da cultura contemporânea.
Em livros como A Sociedade da Transparência, Psicopolítica e A Sociedade do Cansaço, Han argumenta que a sociedade atual substituiu muitas formas tradicionais de controle por uma exigência constante de visibilidade.
Hoje, somos estimulados a compartilhar experiências, registrar emoções, comentar acontecimentos e transformar nossa própria intimidade em conteúdo.
Nunca fomos tão incentivados a mostrar quem somos.
Paradoxalmente, isso produz um efeito inesperado.
Quanto maior a pressão para revelar tudo, maior também se torna a necessidade de proteger aquilo que ainda permanece íntimo.
Nesse cenário, a contenção deixa de ser ausência.
Ela passa a funcionar como resistência.
Não mostrar tudo pode ser uma maneira de preservar aquilo que ainda pertence apenas ao indivíduo.
A semiótica da contenção
Toda identidade artística é construída por signos.
Nada comunica sozinho.
O sentido nasce da relação entre elementos aparentemente opostos.
No projeto de Luciano Simioni, essa oposição estrutura praticamente toda a linguagem estética.
Visualmente, predominam a economia, o silêncio, o preto e branco, o olhar imóvel, poucos gestos e uma atmosfera contemplativa.
Liricamente, acontece exatamente o contrário.
As músicas falam de excesso.
Saudade.
Ansiedade.
Memória.
Perda.
Relações interrompidas.
Pensamentos que insistem em permanecer.
Existe uma tensão permanente entre superfície e profundidade.
O exterior comunica estabilidade.
O interior comunica combustão.
É justamente essa fricção que produz significado.
A frieza nunca aparece como ausência de sentimento.
Ela funciona como a arquitetura que impede esse sentimento de transbordar.
Luciano Simioni como documento de uma geração
Existe uma diferença entre artistas que representam uma época e artistas que conseguem traduzi-la.
Os primeiros dialogam com seu tempo.
Os segundos conseguem transformar tensões históricas em linguagem estética.
O projeto artístico de Luciano Simioni parece caminhar nessa direção.
Seu olhar não comunica vazio.
Comunica contenção.
Sua persona não representa distância emocional.
Representa uma forma específica de administrar a intensidade.
O conceito central do projeto nasce justamente dessa contradição.
Ser intenso por dentro.
Permanecer frio por fora.
Em vez de transformar a emoção em espetáculo, sua estética escolhe preservá-la. Enquanto a superfície permanece controlada, as letras revelam tudo aquilo que o rosto decide não entregar. A intensidade não desaparece; apenas muda de lugar.
Talvez seja justamente por isso que sua identidade artística dialogue tão profundamente com a Geração Z.
Não porque essa geração sinta menos.
Mas porque aprendeu que, em uma cultura onde tudo precisa ser mostrado, proteger a própria vida emocional também pode ser uma forma de expressão.
No fim, o olhar de Luciano Simioni não é apenas uma marca estética.
É uma tese.
A de que algumas emoções são profundas demais para serem performadas, e que, em um tempo obcecado pela exposição, talvez a forma mais radical de intensidade seja justamente aquela que permanece invisível.
Editoria Revista Catarse | solenia records | 2026
Também publicado na Substack da Revista Catarse.