Notre Dame Pt. I & II e a subjetividade da memória
Duo hotel brasil trazem duas perspectivas sobre o mesmo tema que talvez sejam as mesmas.

por que duas pessoas nunca se lembram da mesma história?
O Duo Hotel Brasil nasce do encontro entre duas trajetórias que, à primeira vista, parecem seguir caminhos distintos. Após o fim da Florida Cup, banda marcada pela MPB, Fábio Galiani decide iniciar um novo projeto ao lado de Luciano Simioni, cuja trajetória sempre esteve mais próxima do indie rock. Em vez de buscar uma identidade homogênea, a dupla faz da diferença seu principal elemento estético. O resultado aparece com clareza em Notre Dame Pt. I & II, uma composição dividida em duas partes, com atmosferas e instrumentações distintas, mas unidas por um mesmo tema: a memória.
A música parte de uma pergunta que atravessa a filosofia, a psicologia e até a história: como duas pessoas conseguem viver exatamente o mesmo relacionamento e, anos depois, lembrar de histórias completamente diferentes?
A psicóloga brasileira Ecléa Bosi, referência nos estudos sobre memória social, defendia que lembrar não significa recuperar o passado como ele aconteceu. Toda lembrança é reconstruída pelo sujeito que recorda. O tempo modifica não apenas os acontecimentos, mas também quem se lembra deles. Em Memória e Sociedade, Bosi mostra que recordar é sempre um diálogo entre passado e presente: aquilo que lembramos diz tanto sobre quem fomos quanto sobre quem nos tornamos.
Essa ideia parece atravessar a letra de Notre Dame Pt. I & II. Quando o narrador canta:
“Te procurei por tantos lugares / E quando encontrei / Não te reconheci.”
a estranheza não está necessariamente na mudança da outra pessoa. Está também na transformação daquele que procura. A memória nunca devolve alguém exatamente como ele foi, porque quem recorda já não é o mesmo que viveu aquela experiência.
Essa percepção aproxima a canção do filósofo francês Henri Bergson. Para ele, o passado não permanece guardado como um arquivo intacto esperando para ser acessado. Toda vez que lembramos de algo, reconstruímos essa lembrança a partir do presente. A memória é viva, móvel e inseparável da consciência de quem lembra.
Talvez seja por isso que o desfecho da música seja tão contundente:
“Mas essa nunca foi você / E agora eu vou levar no peito / Alguém que nunca existiu.”
À primeira vista, o verso pode soar como uma acusação. Mas, sob a perspectiva de Bergson e de Ecléa Bosi, ele revela outra possibilidade: não é a pessoa que nunca existiu, mas a imagem que a memória construiu dela. Ao longo do tempo, ausências, expectativas e afetos reescrevem aquilo que acreditamos lembrar. O narrador percebe que convive, agora, com uma versão produzida pela própria lembrança.
A psicologia cognitiva chega a uma conclusão semelhante. O britânico Frederic Bartlett, pioneiro nos estudos sobre memória reconstrutiva, demonstrou que recordar não é recuperar fatos, mas preencher lacunas. Cada lembrança é reorganizada pelas emoções, pelas experiências posteriores e pelas narrativas que contamos a nós mesmos. É por isso que duas pessoas podem compartilhar exatamente o mesmo acontecimento e, anos depois, descrevê-lo de maneiras completamente diferentes. Nenhuma delas está necessariamente mentindo. Ambas estão reconstruindo.
A escolha do título da música amplia ainda mais essa leitura. Após o incêndio que atingiu a Catedral de Notre-Dame em 2019, o monumento deixou de representar apenas um edifício histórico. Como observa o historiador francês Pierre Nora, certos lugares ultrapassam sua materialidade e tornam-se lugares de memória: espaços que concentram diferentes significados para diferentes pessoas. A Notre-Dame dos arquitetos, dos religiosos, dos turistas ou dos franceses nunca foi exatamente a mesma. O edifício era único; as memórias sobre ele, não.
Na canção, as ruínas de Notre-Dame parecem funcionar exatamente dessa forma. Elas não representam apenas uma catedral destruída, mas aquilo que resta de uma relação quando o tempo faz desaparecer os contornos objetivos e preserva apenas fragmentos. O verso “Se perdem traços do que um dia fomos” não fala apenas do fim de um amor; fala da impossibilidade de recuperar uma lembrança em seu estado original.
A própria estrutura musical reforça essa ideia. Dividida em duas partes, Notre Dame Pt. I & II alterna cadências, timbres e atmosferas sem tentar esconder essa ruptura. A fragmentação não parece ser uma escolha apenas estética, mas conceitual. Assim como a memória nunca se apresenta de maneira linear, a música também se organiza em fragmentos, mudanças de perspectiva e lacunas. As duas partes não competem entre si; coexistem, da mesma forma que diferentes lembranças podem coexistir sobre uma mesma história.
Curiosamente, esse princípio também ajuda a compreender o próprio Duo Hotel Brasil. Em vez de apagar o passado para construir uma nova identidade, Fábio Galiani e Luciano Simioni preservam as marcas de suas trajetórias e permitem que elas convivam. O projeto nasce justamente da aceitação de que duas histórias diferentes podem ocupar o mesmo espaço sem precisar se fundir em uma só.
Talvez seja essa a principal reflexão proposta por Notre Dame Pt. I & II. O fim de um relacionamento nunca produz uma única narrativa. Produz tantas versões quanto pessoas permaneceram para lembrá-lo. Como escreveu Ecléa Bosi, recordar é sempre reconstruir. A música transforma essa ideia em som: não fala apenas da saudade de alguém, mas da saudade da pessoa que cada memória, silenciosamente, inventou.
Editoria Revista Catarse | solenia records | 2026
Também publicado na Substack da Revista Catarse.