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Perfil Criativo11 JUL 2026

Terraplana: quando o ruído vira lugar de pertencimento

O som chega antes da forma.

Foto: Sidebart / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0 · ver original · licença

Guitarras densas, camadas que se acumulam, vozes que não procuram dominar a música, mas desaparecer dentro dela. A Terraplana constrói uma sonoridade que parece operar em outra lógica: não existe a urgência de capturar atenção imediatamente. O impacto não vem da exposição; vem da imersão.

E talvez seja justamente essa característica que explique o magnetismo da banda.

Em um cenário musical cada vez mais orientado pela velocidade, pela clareza e pela disputa constante por atenção, a Terraplana cria uma experiência baseada no oposto: permanência, atmosfera e identificação. O que parece, à primeira vista, uma música distante ou introspectiva, acaba funcionando como um espaço coletivo onde diferentes pessoas encontram uma sensação em comum.

A força da banda não está apenas no som que produz.

Está no lugar simbólico que ela cria.

A música como identidade

O psicólogo social Henri Tajfel, através da Teoria da Identidade Social, propôs que parte da nossa percepção sobre quem somos vem dos grupos aos quais pertencemos. Nossa identidade não é formada apenas por características individuais; ela também nasce das comunidades que reconhecemos como nossas.

A música sempre funcionou dessa maneira.

Gostar de uma banda raramente é apenas uma escolha estética. Gêneros musicais carregam códigos, comportamentos e formas de enxergar o mundo. O fã não se conecta apenas com uma sequência de acordes; ele se conecta com aquilo que aquela música representa.

No caso da Terraplana, essa identificação acontece através de uma linguagem muito específica. O shoegaze não é apenas um gênero baseado em guitarras distorcidas e camadas sonoras. Ele carrega uma determinada relação com a experiência: introspecção, contemplação e uma espécie de fuga temporária da realidade imediata.

O ouvinte não encontra apenas uma música.

Encontra um lugar onde uma determinada sensibilidade parece fazer sentido.

Uma comunidade sem fronteiras

O sociólogo Benedict Anderson, ao estudar a formação das comunidades modernas, criou o conceito de comunidades imaginadas: grupos formados por pessoas que, mesmo sem se conhecerem pessoalmente, compartilham símbolos, referências e uma sensação de pertencimento.

Uma cena musical funciona de maneira semelhante.

Pessoas que nunca se encontraram podem compartilhar as mesmas bandas, frequentar os mesmos espaços, reconhecer determinadas estéticas e sentir que fazem parte de algo maior do que uma simples preferência individual.

A Terraplana se desenvolve dentro dessa lógica.

Antes de existir um grande público, existe uma comunidade capaz de reconhecer aquela linguagem. O valor da banda não nasce apenas da quantidade de ouvintes, mas da intensidade da identificação criada entre obra e público.

É uma relação menos baseada em consumo e mais baseada em reconhecimento.

O ruído como espaço de imersão

Existe também uma característica psicológica própria da sonoridade da banda.

O shoegaze tradicionalmente trabalha com elementos que desafiam a lógica da música popular mais imediata: vocais menos destacados, estruturas menos previsíveis e uma grande atenção para textura e atmosfera.

A música não aponta diretamente para o ouvinte.

Ela envolve o ouvinte.

Estudos sobre percepção musical mostram que determinadas características sonoras podem favorecer estados de absorção, em que a atenção deixa de estar concentrada em elementos individuais e passa a perceber a experiência como um todo. Repetição, camadas e ambientes sonoros densos criam uma sensação próxima à imersão.

Nesse sentido, a distorção não funciona como barreira.

Funciona como ambiente.

O ruído deixa de ser excesso e passa a ser abrigo.

O ritual de estar junto

O antropólogo Victor Turner, ao estudar rituais sociais, desenvolveu o conceito de liminaridade: momentos em que indivíduos deixam temporariamente suas posições cotidianas para participar de uma experiência compartilhada.

Um show funciona exatamente assim.

Durante algumas horas, pessoas diferentes entram em um mesmo espaço simbólico. As diferenças individuais diminuem enquanto uma identidade coletiva surge através da música.

No caso da Terraplana, isso é especialmente interessante porque a própria sonoridade cria uma experiência que não depende de uma figura central dominante. O foco não está apenas no artista; está no ambiente criado entre banda e público.

A experiência não é assistir alguém de fora.

É estar dentro de algo.

Por que a Terraplana cresce?

Talvez a trajetória da banda seja interessante justamente porque ela contraria uma lógica comum da indústria cultural: a ideia de que, para alcançar mais pessoas, uma obra precisa se tornar mais simples.

A Terraplana faz o movimento contrário.

Ela aprofunda sua própria linguagem.

Seu crescimento não acontece apesar da identidade construída, mas por causa dela. A banda não cria pertencimento tentando representar todo mundo; cria pertencimento ao oferecer um espaço específico para quem se reconhece naquela estética.

É uma lógica semelhante à das grandes cenas musicais da história: movimentos que começaram pequenos porque falavam com poucos, mas se tornaram relevantes justamente porque esses poucos encontraram algo verdadeiro dentro deles.

No fim

A Terraplana não construiu apenas um público.

Construiu um lugar.

Em uma época em que grande parte da música disputa segundos de atenção, a banda aposta em algo diferente: a possibilidade de permanecer. O som não exige uma resposta imediata; ele convida o ouvinte a entrar, permanecer e encontrar significado.

Talvez seja essa a razão pela qual uma música construída a partir do ruído consegue produzir tanta conexão.

Porque, no fim, o pertencimento não nasce apenas daquilo que todos conseguem ouvir.

Às vezes, nasce daquilo que apenas algumas pessoas conseguem sentir juntas.

Editoria Revista Catarse | solenia records | 2026

Também publicado na Substack da Revista Catarse.

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